Comissão de Direitos Humanos da Câmara recebe cerca de 60 indígenas

De espaços de luta a espaços de poder: indígenas de todo o país voltaram a reivindicar a retomada das políticas indigenistas, em especial as demarcações das Terras Indígenas

O lugar do Acampamento Terra Livre (ATL) 2018 mudou de última hora: da Esplanada dos Ministérios para o Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília. A distância até o Congresso aumentou, mas os índios não viram isso como um obstáculo para levar suas demandas à Câmara. No segundo dia da maior mobilização indígena no país, cerca de 60 lideranças de povos que vivem em diferentes regiões do Brasil reuniram-se em uma audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara.

Dentre as principais ameaças a seu direito territorial, as lideranças citaram o “marco temporal”, o parecer 001/2017 da Advocacia-Geral da União, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, o racismo e a violência institucionalizada contra os povos indígenas. O “marco temporal” é a tese ruralista pela qual as comunidades indígenas só teriam direito às terras que estivessem sobre sua posse em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição.  O Parecer da AGU inviabiliza as demarcações ao aplicar a elas, entre outros pontos, o “marco temporal”.  A PEC 215 pretende dar ao Congresso a última palavra sobre as demarcações, o que também pode acabar de vez com os procedimentos demarcatórios. 

Diante desses ataques, as falas formaram um coro: a necessidade demarcação urgente e a importância da terra para os povos indígenas são os pilares das suas lutas.

“Quando se paralisa a demarcação das terras indígenas, se paralisa também a vida dos povos indígenas. A terra é um espaço onde a gente garante a construção da continuidade das nossas vidas”, coloca Angela Kaxuyana. “Um índio sem terra é um índio sem vida”. disse Sandro Potiguara.

Cleber Buzatto, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), sinalizou que a ofensiva ao direito indígena à terra não se dirige somente a quem luta pelo processo demarcatório, mas também aos povos que já têm suas terras homologadas pelo Executivo: “fiquem atentos! Querem consumar a invasão às terras indígenas com venda de lotes, arrendamento… uma nova fase de esbulho possessório”.

Valcélio Terena, que levou as demandas dos povos do Centro Oeste à audiência, lembrou que a relação que os não-indígenas constroem com a terra é muito diferente da forma que os indígenas a veem: “a nossa terra não tem preço para nós, para ser comercializada. A nossa terra é [feita] para sobreviver dela. A preservação da natureza anda junto com os povos indígenas”.

A defensora pública federal, Daniele de Souza Osório, que acompanha o caso dos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul, levou à Comissão dados da Sesai e do CIMI sobre suicídios e homicídios, além de manchetes de jornais regionais que registram o conflito agrário contra os Guarani no estado mato-grossense. A disputa territorial impacta os modos de vida guarani de um modo perverso: o índice de suicídios na região é significativamente maior do que o da média nacional.

Daniele falou reforçou a urgência da continuidade das demarcações de terras indígenas no país, lembrando que esse é um procedimento que segue o texto constitucional: “O artigo 231 é muito claro: a terra tradicionalmente ocupada pelos povos indígenas é dos povos indígenas. Não é um favor”.

O ATL 2018 vai até a próxima sexta, 27/4, no Memorial dos Povos Indígenas, na Praça do Buriti, em Brasília. A mobilização conta já com mais de 3,5 mil indígenas, de mais de 100 povos de todo o Brasil.

Sem participação não há solução: saúde indígena em pauta no ATL

Grupo de Trabalho de Saúde no ATL 2018. Crédito: Mobilização Nacional Indígena

 

O cenário de retirada de direitos que os povos indígenas vivem, especialmente nos últimos anos, encontra na precarização da saúde uma das suas faces mais duras. Engessada, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) não consegue transformar seu orçamento de R$ 1,6 bilhão em melhorias concretas na ponta. É o que relatam povos indígenas de todas as regiões do Brasil.

Reunidos em Grupo de Trabalho neste segundo dia do Acampamento Terra Livre, eles reivindicaram a contratação de mais agentes indígenas de saúde, a ampliação dos cursos de capacitação, mais medicamentos, melhoria da rede de alta complexidade, mais atendimentos em saúde mental e na atenção básica, controle social fortalecido, melhoria de estrutura nos pólos-base, integração com a medicina tradicional indígena e o respeito às demandas apresentadas para além da mera formalidade.

Esta é a pauta que os parentes levarão ao conhecimento do Ministério da Saúde e da SESAI nesta quarta (25). O momento é de apreensão, já que a secretaria iniciou novo chamamento público para contratação de entidades terceirizadas para o atendimento em todos os DSEIS (Distrito Sanitário Especial Indígena). Se a situação já é complicada na maioria das regiões, a incerteza com a mudança é ainda maior em relação à capacidade da SESAI em atender as pautas e cumprir com a sua obrigação.  O governo prometeu que os 10 mil demitidos devem ser recontratados pelas novas entidades. A medida segue como uma promessa.

Os indígenas relataram casos de uso dessas entidades como cabides de emprego, sofrendo a interferência política em diversos níveis e deixando em segundo plano a qualidade do atendimento prestado.

Alan Tembé, o primeiro indígena a se formar em direito na Universidade Federal do Pará, conta que o seu povo – cerca de 500 parentes – sequer tem atendimento de saúde estabelecido ainda. Hoje, ele deveria ser feito pelo DSEI Guatoc (Guamá-Tocantins).

“A SESAI foi criada para atender aos povos indígenas do Brasil, mas considero que ela hoje serve para colocar os seus. O controle social tem que fiscalizar o recurso que chega, precisamos nos preocupar com os coordenadores que estão dentro da SESAI e com as empresas que estão participando do processo licitatório. O momento é de luta”, convocou Tembé.

Rosinei Kamunu, de Brasnorte, no Mato Grosso, reforça a necessidade de contratar indígenas que já se preparam para o trabalho e manifesta preocupação com a mudança de empresas. “Queria que fosse contratado as indígenas que estão preparadas para esse trabalho, porque é quem conhece a dificuldade do nosso povo. Lá temos duas técnicas já formadas no momento e, com essa mudança de empresa, não sabem se irão continuar, se terão que fazer seleção de novo, isso é muito preocupante”.

Em Imperatriz, no Maranhão, falta atendimentos em saúde mental e integração com a rede, relata Marcos Gavião. “Quem pode resolver isso? É preciso estar com a gente na nossa aldeia para dar esse suporte. Muitas doenças graves não contam com uma rede de assistência ampla, local, regional e nacional”.

O ATL 2018 acontece vai até a próxima sexta, 27/4, no Memorial dos Povos Indígenas, na Praça do Buriti, em Brasília. A mobilização conta já com mais de 3,5 mil indígenas, de mais de 100 povos de todo o Brasil.

Maurício Ângelo / Mobilização Nacional Indígena

Novo presidente da Funai nunca lidou com a questão indígena

Plenária da manhã de hoje, no ATL 2018. Crédito: Webert da Cruz / MNI

Em menos de dois anos, terceiro presidente da Funai é nomeado pelo ministro da Justiça

O empresário e pregoeiro Wallace Moreira Bastos é o novo presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai). Nomeado na manhã desta terça-feira (24) pelo ministro da Justiça, Torquato Jardim, substitui o general Franklimberg Ribeiro de Freitas, que entregou o cargo após pressão da bancada ruralista. Esta é a terceira mudança no comando do órgão indigenista em menos de dois anos.

“Não conhecemos essa pessoa, nunca ouvimos falar, mas o principal é que a indicação vem de políticos contrários ao que a Funai tem como missão: atender aos interesses dos povos indígenas garantidos pela Constituição. Para gente, se trata da desarticulação completa do órgão indigenista”, afirmou Dinamã Tuxá, da coordenação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), na tarde desta terça, no Acampamento Terra Livre (ATL) 2018.

O ATL 2018 acontece vai até a próxima sexta, 27/4, no Memorial dos Povos Indígenas, na Praça do Buriti, em Brasília. Ele é a 15ª edição do ATL. A mobilização conta já com mais de 3,2 mil indígenas, de mais de 100 povos de todo o Brasil.

Indicação do PSC

Tal como os presidentes anteriores, Bastos não possui nenhuma experiência com a questão indígena. Atualmente, ocupava o cargo de subsecretário de Assuntos Administrativos do Ministério dos Transportes, tendo no currículo passagens pela Companhia Docas do Maranhão e Agência Nacional de Aviação Civil. Em Brasília. Ele é proprietário das franquias Girafas, Casa do Pão de Queijo, Montana Grill e Café Cancun.

A indicação de Bastos partiu mais uma vez do PSC, partido da base do governo Temer responsável pela escolha dos dois presidentes anteriores. Conforme o próprio ministro Torquato Jardim, o nome foi levado ao Palácio do Planalto pelo líder do governo na Câmara, deputado federal André Moura (PSC-SE), depois de aprovado pelo conjunto dos parlamentares ruralistas.

“Na verdade as demarcações estão praticamente paralisadas já. Na Região Sul, mesmo os Guarani de Santa Catarina estão com 100% das suas terras com pedidos de revisão. Difícil é entender a razão dos dois últimos presidentes, indicados por eles [PSC e ruralistas], não terem agradado”, enfatiza um dos coordenadores da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (ArpinSul), Kretã Kaingang.
Em nota pública, a Frente Parlamentar do Agronegócio (FPA) se pronunciou, afirmando que Franklimberg Ribeiro de Freitas “não atendia o setor”. Após a repercussão negativa na opinião pública, a FPA soltou novo comunicado afirmando que a saída do presidente era uma exigência de lideranças indígenas.

As lideranças indígenas presentes no ATL contestaram a nota da bancada ruralista. “Uma invenção [a informação da FPA] porque não há representatividade. Estamos no ATL com mais de 3 mil indígenas, e suas organizações, contrários ao que ocorre com na Funai e unidos ao redor da Apib”, diz Francinara Baré, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB).

Toda a articulação que culminou com a nomeação de Bastos ocorreu às vésperas do 19 de abril, o Dia do Índio: há décadas a data é o momento escolhido pelo governo federal para a publicação de identificações, demarcações e homologações de Terras Indígenas. Lideranças e militantes também criticaram o fato da data ter passado em branco neste ano – o presidente Michel Temer não homologou sequer uma Terra Indígena. “[Essa] é a demonstração da afronta protagonizada pelos setores anti-indígenas, nos últimos anos, além do quanto estes grupos se apossaram dos rumos da política indigenista”, analisa o antropólogo Daniel Pierri, do Centro de Trabalho Indigenista (CTI).

Acabar com “o papelucho”

Desde 2013, a bancada ruralista voltou-se à tomada de cargos da Funai. Missão dificultada durante a gestão de Dilma Rousseff, apesar da relação de proximidade de seu governo com o agronegócio. “O que temos de acabar é com aquele papelucho”, disse o deputado Alceu Moreira (PMDB-RS), na época, durante debates da Comissão de Constituição e Justiça sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215.

O “papelucho” referido pelo ruralista é o instrumento dos estudos que embasam os relatórios administrativos de demarcação das terras indígenas. São esses documentos, conforme procedimento previsto na Constituição e no Decreto 1775/1996, que definem se há ou não ocupação tradicional do território reivindicado por um povo, bem como o tamanho da terra.

Com o impeachment de Dilma Rousseff, e a ascensão de seu vice, Michel Temer, ao Palácio do Planalto, as portas da Funai foram escancaradas ao objetivo da bancada ruralista de acabar com as demarcações de vez. De lá para cá, dois presidentes da Funai caíram por não ter viabilizado o objetivo. “É público e notório que os ruralistas colocaram gente deles no quadro funcional da Funai, nas diretorias. Querem acabar com as demarcações por dentro”, aponta Dinamã Tuxá.

Para o indígena, no entanto, os ataques vão além: liberar garimpo nos territórios, sucatear as fiscalizações das terras contra invasores (madeireiros, grileiros) e assinar licenças para a execução de grandes empreendimentos também fazem parte da ofensiva. “Impedir o andamento das demarcações e correr com os projetos de esbulho das terras indígenas, com exploração econômica, é sem dúvida a intenção”, diz o Tuxá.

Loteamento e disputas internas

Para Márcio Santilli, sócio fundador do Instituto Socioambiental (ISA), é de se “lamentar a lógica do loteamento partidário do Estado brasileiro, de um modo geral. No caso da Funai, é um agravante porque ela tem a missão de tratar do direito de minorias. De forma nenhuma tinha que estar subordinada a interesses de partidos políticos, bancadas, independentemente de quais sejam”.
O indigenista, que já presidiu o órgão, entende que a Funai não deveria ser tratada pelo governo como um espaço de barganha política. “Não sei quem é a pessoa (novo presidente), não o conheço, mas sabemos que não tem tradição de batalhar ao lado dos povos indígenas, não é uma pessoa que tem experiência de execução da política indigenista. O mais grave, porém, é o fato da pessoa aceitar uma missão como essa mediante compromisso com uma facção política”, critica Santilli.

As inerentes “pressões espúrias de todos os lados”, conforme o indigenista, afetaram os presidentes anteriores: “Provavelmente não eram de má índole, mas que se deixaram levar por esse jogo e que comeram o pão que o diabo amassou, vendo de um lado o sofrimento e necessidades dos povos indígenas e de outro lado essas pressões absurdas e espúrias pra nomear gente que não é da área, para se apropriar do orçamento e para fazer com que a política indigenista se torne um repositório da sórdida barganha política no Estado brasileiro”.

O secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cleber Buzatto, entende que há também um “desacordo interno da bancada ruralista e da própria bancada evangélica, que tem feito as indicações dos membros. Mesmo o PSC tendo indicado já dois presidentes, os ruralistas não estão contentes com quem eles mesmos acabam escolhendo”, comenta.

Para o missionário indigenista, os povos devem fazer a luta pela revogação do Parecer 001, da Advocacia-Geral da União (AGU), que impõe ao Poder Executivo as determinações do caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, entre elas a tese do “marco temporal”. “Na prática se trata de um padrão antidemarcação e de efetivação de direitos do governo brasileiro. Para superar essa fase, acreditamos que o foco está em combater tais medidas com mobilização”, pontua Buzatto.

Toda a emoção do 1º dia do Acampamento Terra Livre 2018 em vídeo

Das aldeias de todo o país mais de 3.200 indígenas, de 100 povos diversos, cruzaram o Brasil para, aqui em Brasília, lutar pela garantia de seus direitos: mais participação na política, o fim da criminalização dos indígenas e pela retomada das demarcações de terras já.

#DemarcaçãoJá #ATL2018

Confira abaixo como foi o primeiro dia do Acampamento Terra Livre 2018:

Para garantir a demarcação, povo Munduruku lança o “Mapa da Vida”

Publicação busca sensibilizar o governo e a sociedade sobre a importância da terra e do rio Tapajós para a sobrevivência do povo

Lutando há mais de três décadas contra a instalação de hidrelétricas no Rio Tapajós, no Pará, o povo Munduruku lançou nesta terça, dia 24, o “ Mapa da Vida – Tapajós e Sawre Muybu: a visão do povo Munduruku sobre seu rio e seu território”. Com a publicação, os Munduruku buscam mostrar ao governo e à sociedade a importância da demarcação de suas terras para a sobrevivência do povo, de sua cultura e dos recursos naturais.

Durante o Acampamento Terra Livre 2018, os Munduruku realizaram um ato em frente ao Palácio da Justiça, sede do Ministério da Justiça, em Brasília, para exigir a demarcação de sua Terra Indígena Sawre Muybu. Eles instalaram placas no gramado do Palácio e distribuíram o Mapa da Vida para a população nas ruas da região. Na sequência, ao entregarem a publicação ao Ministério da Justiça, cobraram uma posição do órgão sobre o processo de demarcação.

O Mapa da Vida é resultado de um intenso e rico processo de mapeamento territorial e cultural, desenvolvido ao longo de dois anos na Terra Indígena Sawre Muybu sob a liderança dos Munduruku, com o apoio do Greenpeace. Ele revela o uso tradicional que o povo faz do seu território ancestral e do rio Tapajós, expondo como seu modo de vida é interligado e interdependente da natureza.

A iniciativa chama a atenção para a urgência da necessidade de demarcação da Terra Indígena Sawre Muybu, que garante o direito originário deste povo ao seu território tradicional, evitando que sua sobrevivência vá por água abaixo com a implantação de grandes projetos de infraestrutura, especialmente as hidrelétricas. “Vamos esperar de braços cruzados, sentados, a água encher para alagar nossas terras? Não, nós temos que lutar. O mapeamento é uma arma que temos para nos defender”, declara Bruno Kaba, Chefe dos Guerreiros do povo Munduruku.

“Trata-se de um poderoso instrumento de diálogo com a sociedade sobre a política energética nacional, que insiste em expandir a construção de hidrelétricas na Amazônia, afetando o modo de vida dos povos indígenas e populações tradicionais”, declara Danicley de Aguiar, especialista em Amazônia, do Greenpeace Brasil.

Após anos de luta dos Munduruku, o governo arquivou, em 2016, o licenciamento da usina hidrelétrica de São Luiz do Tapajós. Apesar da vitória, eles acreditam que a não demarcação da terra indígena Sawre Muybu é um claro sinal de que o governo ainda não desistiu totalmente dos planos de construção de hidrelétricas na região. Atualmente, há cerca de 40 hidrelétricas planejadas ou em construção na bacia do rio Tapajós. “Nós não estamos fazendo caminho em terra alheia, não estamos invadindo a terra de outros. Nós estamos fazendo o nosso caminho”, afirma Juarez Saw, cacique da aldeia Sawre Muybu.

A demarcação da Terra Indígena Sawre Muybu, de cerca de 178 mil hectares, se arrasta há anos na burocracia estatal e atualmente está completamente paralisada. O prazo administrativo para a decisão sobre a demarcação foi encerrado em novembro de 2016, mas, até o momento, o Ministério da Justiça ainda não se pronunciou a respeito.

Conheça e navegue pelo Mapa da Vida: www.tapajos.org/omapadavida

Mais de um milhão de pessoas já apoiam a luta dos Munduruku. Faça parte deste movimento

ATL reafirma resistência indígena por demarcação e protesta contra criminalização de lideranças

Plenária da manhã discutiu vários temas, entre eles, criminalização e demarcação de terras. Crédito: Yuri Barbosa / Mobilização Nacional Indígena

O cenário de retrocessos políticos e as estratégias necessárias para resistir à retirada de direitos foram pauta no segundo dia do Acampamento Terra Livre (ATL) 2018, em Brasília. Nesta terça (24), lideranças indígenas e representantes de organizações de apoio e de movimentos sociais discutiram a conjuntura e suas consequências para os povos indígenas durante a plenária geral.

A criminalização das lideranças indígenas foi um dos tópicos do debate.

“É muito triste um momento em que nós, povos originários desta terra, somos criminalizados por lutarmos por nossos direitos”, lamenta Paulo Tupiniquim, da coordenação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

“Fiquei um tempo preso, fui acusado de crimes que não foram provados e estou há quatro anos impedido por um juiz de me aproximar da terra onde eu nasci”, afirma Kretã Kaingang, também da coordenação da APIB.

Resistência aos ataques

 A aliança anti-indígena firmada entre o governo Temer e a bancada ruralista, bem como  a necessidade de resistir aos retrocessos também foram pauta dos debates.

“Além de ocuparmos as terras, chegou a hora de ocuparmos a política”, afirmou Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e pré-candidato à presidência pelo PSOL, juntamente com Sônia Guajajara.

“Michel Temer é o primeiro presidente que não homologou nenhuma terra, ele está no zero”, disse Márcio Santilli, do Instituto Socioambiental (ISA). “O que temos visto é uma desconstrução da política indigenista. O governo tenta acabar com a Constituição por meio de um parecer da AGU”, prosseguiu, falando sobre uma das principais pautas de luta deste ATL: o Parecer 001/2017 da Advocacia-Geral da União (AGU), chamado pelos povos indígenas de “Parecer do Genocídio” ou “Parecer Antidemarcação”.

A norma obriga toda a administração pública a aplicar medidas previstas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no caso Raposa Serra do Sol, de 2009, a todos os processos de demarcação, o que na prática inviabiliza o reconhecimento das terras indígenas. O Ministério Público Federal (MPF) considerou o parecer inconstitucional e pediu sua anulação.

“O que está sendo usado como parâmetro para os processos de demarcação não é o artigo 231 da Constituição, mas sim o parecer da AGU”, apontou Cleber Buzatto, secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). “Essa estratégia afeta não só os processos de demarcação em curso, mas também terras já demarcadas que estão sendo invadidas e exploradas”, afirmou.

O domínio ruralista nos órgãos federais de assistência aos povos indígenas, como a Funai e a Sesai, foi denunciado por Sônia Guajajara. “A conta para que o golpe acontecesse está sendo paga agora por nós. Muitas lideranças deram suas vidas para construir a Constituição Federal. Hoje, a responsabilidade é nossa de não permitir que rasguem nossos direitos”, concluiu.

Debate continua no ATL

A discussão da plenária geral será aprofundada durante a tarde, quando os indígenas se dividirão em Grupos de Trabalho específicos. Os temas em debate, que servirão para embasar o documento final do ATL, incluirão demarcação e proteção das terras indígenas, saúde indígena, gestão ambiental e territorial, educação e violência e criminalização. À noite, estão previstas a visita de parlamentares aliados e a Plenária da Juventude.

Participação na política e luta pela terra: mulheres indígenas abrem ATL 2018

Plenária reuniu mulheres durante ATL 2018. Crédito: Christian Braga / MNI

Mulheres indígenas lotaram a tenda principal no primeiro dia do Acampamento Terra Livre (ATL) 2018, na tarde desta segunda-feira (23). Lideranças de diversos povos falaram sobre a importância de sua participação na política, luta pela terra, saúde de qualidade e educação diferenciada. Foram mais de três horas de plenária e dezenas de mulheres se revezaram ao microfone.

Lideranças das diferentes regiões do país deverão encaminhar propostas e reivindicações discutidas na plenária e que deverão ser incluídas no documento final do ATL.

As falas foram duras: exigiram a demarcação imediata das Terras Indígenas e o fim do ataque aos  direitos indígenas. Se os povos indígenas estão entre os mais vulneráveis sob governos que não acolhem às políticas públicas diferenciadas e de garantias constitucionais, é entre as mulheres que os efeitos do problema podem ser piores.

Carolina Rewaptu, cacique da aldeia Madzabzé, da Terra Indígena Marãiwatsédé (MT) – uma das mais desmatadas no Brasil -, frisou a importância das mulheres indígenas ocuparem os espaços de decisão política: “A gente tem que falar na presença dos políticos. Eles querem acabar com a nossa cultura, as nossas religiões, as nossas histórias. A gente tem que falar na presença deles”. É a primeira vez que a cacique vem ao ATL e prometeu levar as discussões para os parentes que ficaram na aldeia.

Muitas mulheres fizeram coro à fala de Carolina Rewaptu. Tal desejo se encarna no atual calendário eleitoral em Sônia Guajajara, pré-candidata à co-presidência pelo PSOL, ao lado de Guilherme Boulos, que frisou:

“Não viemos aqui porque gostamos de ficar dois dias no ônibus, deixando nossos filhos. Ou porque gostamos de tomar chuva e ficar acampados. Viemos para ocupar os espaços. Quem mais sofre com os empreendimentos, com esse modelo econômico predador, somos nós mulheres indígenas. Precisamos estar nos espaços que tomam as decisões”, apontou.

A expectativa diante da candidatura de Sônia, no entanto, é um fruto maduro de uma luta da mulher indígena mais antiga. Não é a primeira vez que dona Isabel Xerente vem ao acampamento. Ao pegar o microfone, a liderança aponta para seus cabelos: “Quantas vezes os parentes já me ouviram falar no ATL? Já estou de ‘cabeça’ branca de tanto caminhar e deixar meus filhos e filhas. Lutamos e vamos atrás da nossa floresta, da nossa árvore, do nosso mato, para pisar em cima da terra. Se a gente tivesse com medo, nós não estava aqui”.

O grande número de mulheres presentes surpreendeu Suzana Xokleng, que atua na luta pela garantia dos direitos da mulher indígena desde a década de 1990, sendo ex-presidente da Associação Nacional das Mulheres Indígenas. “Eu vejo muitas mulheres presentes na plenária, acompanhando a política indígena. Antes não era assim”, contou, de mãos dadas com Tuíre Kayapó, outra grande liderança do movimento das mulheres indígenas. “Somos avós e bisavós e estamos aqui. Vamos nos unir, mulheres, para cuidar das nossas terras tradicionais!”, disse Suzana.

O ATL 2018 acontece vai até a próxima sexta, 27/4, no Memorial dos Povos Indígenas, na Praça do Buriti, em Brasília. Ele é a 15ª edição do ATL.